Conceitos curatoriais e primeiros projetos anunciados da 31a Bienal de São Paulo

Como aprender coisas que não existem

6 de setembro a 7 de dezembro de 2014

Diretores artísticos: Charles Esche, Galit Eilat, Nuria Enguita Mayo, Pablo Lafuente, Luiza Proença, Oren Sagiv and Benjamin Seroussi.

Curatorial concepts

Downey-300x224

Talvez a melhor maneira de entender o atual status da 31a Bienal de São Paulo seja pensar nela como uma jornada. A rota traçada pela equipe da Bienal segue caminhos já bastante percorridos, assim como quintais e becos sem saída, e envolvem bagagens de achados e perdidos, assim como vários pensamentos novos que surgiram ao longo dessa estrada. Essa jornada está, claro, longe de seu final – que irá chegar somente em dezembro de 2014 -, mas essa ideia de jornada é uma das que queremos oferecer aos visitantes da bienal, depois de sua abertura no dia 06 de setembro. Várias oportunidades irão surgir para entender a natureza da jornada, formada pelas densidades de diferentes obras de arte que irão somar-se a um conjunto de itinerários ao redor de uma ideia em comum. Conflitos, descobertas e transformações virão através de projetos desenvolvidos por artistas, às vezes em colaboração com outros.

Desde o começo, nós quisemos trabalhar juntos como um corpo coletivo e, mesmo com o tempo que foi gasto nessa construção, nós acreditamos que essa é uma metodologia mais sintonizada com a nossa contemporaneidade precária (como podemos observar nas ruas em todo lugar). O artifício da jornada é uma tentativa de enxergar o mundo e sua arte através da perspectiva de São Paulo, viajando daqui para o mundo. De forma geral, nós sentimos, não somente aqui, mas também em diferentes sociedades ao redor do mundo, que as pessoas estão num equilíbrio precário entre a esperança de que novas e imagináveis possibilidades sociais possam se abrir diante delas, e o medo de que não haja nenhuma mudança no atual sistema global, para além das suas regras e controles. Para nós, os projetos que participam da bienal parecem ser direcionados, de diferentes maneiras, para essa ambiguidade social e indicar caminhos pelos quais isso possa ser discutido, absorvido, usado como elemento de luta ou para ajudar a formar nosso futuro (cultural).

Jornadas

A jornada começou em pelo menos três direções bem diferentes. Uma era a de se aprofundar na história da Bienal de São Paulo e do Pavilhão Ciccillo Matarazzo, onde a exposição é feita desde 1957. Uma outra baseava-se na viagem pelo Brasil e o atual estado de seu cenário artístico, cultural e político, considerando a sua intensa relação com o contexto mais amplo da América Latina. A terceira pretendia engajar-se numa conversa e num intercâmbio com as equipes pemanentes da bienal, seus apoiadores e o extenso mundo à nossa volta.

Nossas primeiras ações basearam-se em organizar ‘reuniões abertas’ pelo Brasil em colaboração com instituições e pessoas locais. As reuniões, em cidades como Porto Alegre, no sul, Fortaleza, Recife e Salvador no nordeste, Belo Horizonte e São Paulo no sudeste, e Belém, no norte, nos permitiram construir uma situação de intercâmbio, através da qual conhecemos perspectivas, interesses, preocupações e urgências voltadas a arte nesses locais. Nós entramos em contato com questões relacionadas à arte e sua ligação com a vida nas cidades; falamos sobre educação e infraestrutura cultural, dinâmicas sociais locais e os atuais esforços políticos, além de muito mais. Toda essa informação tem sido fundamental para a formação da nossa equipe de curadores. As reuniões, além de iniciarem relações que se seguem desde então, revelaram que o cenário artístico no Brasil é bastante ancorado, mas de formas muito diferentes em cada cidade, em cada região, e que a comunicação entre os diferentes lugares não é necessariamente igual ou satisfatória. Nós também pudemos observar diferenças no tipo de trabalho produzido nas diferentes cidades, muitas vezes dependente da presença ou ausência de infraestruturas e mercados que contribuam para o funcionamento da arte, assim como as diferentes relações que a arte estabelece para um contexto cultural, social e político. Viajando pelo Brasil e por outras partes da América Latina, o movimento das pessoas, seu deslocamento e reassentamento se tornou uma grande preocupação – pelo direito do transporte público gratuito, ou mesmo acessível, durante a experiência de migração e a invisibilidade social de grupos nômades, assim como as tentativas de estabelecer uma interlocução com povos indígenas.

Ao mesmo tempo, nessa jornada geográfica, nós começamos a analisar a forma como o próprio pavilhão da bienal – o símbolo icônico do evento – foi usado no passado. Nosso estudo da arquitetura que já esteve presente na bienal e do próprio edifício em si, revelou qualidades arquitetônicas únicas e diversas, que podem ser usadas para possibilitar diferentes tipos de encontro com obras de arte e a ideia de arte. Nós tentaremos tirar vantagem dessas características, presentes na forma como obras e projetos são expostos, a fim de enfatizar o ato físico de estar num evento da bienal e o potencial transformador que ele guarda para os usuários desse espaço. Isso irá implicar na atribuição de diferentes funções a diferentes espaços e em não tratar o pavilhão como um armazém de arte, mas como um espaço voltado para os 500 000 usuários esperados, considerando suas necessidades e confortos.

Essas jornadas, pelo Brasil e por dentro do edifício, começaram a formar o que pensamos ser relevante ou apropriado para o evento. Um dos primeiros artistas a fazer sentido para nós foi Prabhakar Pachpute. Sua habilidade em criar imagens que se comunicam com uma intensidade orgânica nos levou a convidá-lo a integrar o projeto da identidade visual da 31ª Bienal – um processo de quatro meses com a equipe de design da bienal, que foi formada com base nas noções de imaginação, transformação, coletividade e conflito. A imagem que escolhemos, uma forma monstruosa e sem visão, caminhando indecisa mas com o desejo determinado de um corpo coletivo, compartilhando uma inteligência comum e um sentido sensorial expandido, carrega essas quatro ideias que se tornaram cruciais para o nosso trabalho. Elas já foram a base de nossos materiais educacionais, produzidos em fevereiro para permitir que os professores os aplicassem como ferramentas, para preparar o terreno para visitas escolares à bienal na primavera.

Imaginação e transformação

Para guiar a jornada através das obras de arte, nós escolhemos um viajante épico da arte, Juan Downey, um chileno que produziu obras pelas Américas, criando uma relação singular com as comunidades indígenas que ele buscou e questionando os códigos pelos quais as pessoas são (re)presentadas. Nós iniciamos uma conversa com Romy Pocztaruk, um artista cuja exploração fotográfica das Transamazonas e da cidade abandonada de Fordlândia despejou uma nova luz nestes territórios ‘esquecidos’; e com Danica Dakic, que trabalhou com populações na Europa que não recebem os mesmos direitos ou acessos disponíveis aos cidadãos ‘normais’. As obras de Armando Queiroz envolvendo a Amazônia também abordam a invisibilidade e o violento desaparecimento em curso das populações indígenas no Brasil.

Tais formas de existência se relacionam diretamente com o elemento fixo em nosso título móvel: as coisas que não existem. Nosso título propõe muitas e diferentes maneiras de abordar essas coisas: como falar sobre elas, como aprender com elas, como viver com elas, como lutar com elas… numa tentativa de apontar para uma das principais características da arte – tornar visível o invisível, e mudar efetivamente as relações que constituem o nosso mundo. As pinturas de Jo Baer, que mostram a luta da autora para interpretar o turbilhão de pensamentos que emergem das antigas e silenciosas pedras da Irlanda, entram diretamente em contato com esse fenômeno. Val del Omar transforma as estátuas inanimadas Barrocas da arquitetura árabe em criaturas vivas, cheias de energia mística e presságios (uma combinação de mecânica, ótica, poesia e misticismo). Asger Jorn também trabalha numa direção parecida, com seu projeto fotográfico voltado ao simbolismo da escultura e da arquitetura, num contexto Norte-Europeu. Outros, como Sheela Gowda, Tunga e Lia Rodrigues ou Edward Krasinski, promulgam uma transformação mais material, que altera a natureza da ‘matéria’ para que suas propriedades sombrias, mágicas, alquímicas possam emergir e permitir uma experiência que transcenda as condições em que nos encontramos.

O conceito de não-existência pode ser igualmente lido como o resultado de nossa limitada imaginação política e econômica. A maioria de nós vive num mundo onde a ideologia dominante, o capitalismo neo-liberal, parece ser capaz de ignorar ou excluir experiências ou formas de vida incovenientes de sua consciência, ou senão, incorporá-las de uma maneira que rompa com os princípios e a natureza das coisas, até um ponto em que essas coisas não retenham mais nenhuma de suas características originais. Esse processo faz com que certos tipos de emoções, crenças e encontros tornem-se irreais, porque as línguas que nós precisamos para compartilhar coisas com outros não dão conta dessa responsabilidade. Por vezes, pode parecer que as próprias coisas nunca existiram e que suas memórias são lentamente descartadas. Chamar a atenção para as coisas não articuladas é um dos desafios que nós nos colocamos para essa Bienal, e a capacidade política da arte de hoje encontra-se, em parte, no despertar de coisas que não existem ou não podem existir no consenso atual e na atribuição de um novo valor no mundo, às vezes através do simples reconhecimento de sua ausência. As gentis considerações de Walid Raad, sobre o desaparecimento cognitivo de obras de arte, entra diretamente em contato com esse sentimento, assim como também o fazem as instalações narrativas semi-documentadas de Basel Abbas e Ruane Abou-Rahme, numa relação diferente. Os tecidos de Teresa Lanceta foram feitos depois de algum tempo passado com os Berberes nômades do Marrocos, o que permitiu a ela colocar na exposição uma forma de vida coletiva e um conhecimento comum que está sendo extinto pela ameaça do mercado global e do turismo em massa.

A arte também pode ser uma força perturbadora. Ela pode ser responsável pela aparência e pelo comportamento das pessoas e do mundo de maneiras negativas ou provocativas. A arte pode criar situações onde o proibido é reconhecido e valorizado. Essa é a condição a que nos referimos por trans-, representando transgressão, transcendência, tradução, transgênero, trânsito, transsexualidade e transformação, entre outros. Esse cruzamento das fronteiras (um cruzamento que pode ser parte de uma jornada) pode decorrer através de mudanças literais no corpo (gênero) ou diferentes condições mentais (sistemas de crença): às vezes, até frequentemente, eles se juntam. Os filmes de Virgínia de Medeiros, Nurit Sharett e Yael Bartana, assim como o misticismo de muitos dos artistas acima, capturam esse sentido de trans- e o colocam em funcionamento.

Educação

Um dos efeitos do trans- é que não há mais como retornar de volta ao original ou, em outras palavras, não se pode colocar a tinta de volta no tubo, uma vez que ela já tenha saído. O trans- implica numa mudança de estado, como a que ocorre em encontros educacionais bem sucedidos. Nós tivemos a chance de colaborar com a equipe educacional da Fundação Bienal, que tem trabalhado por mais de quatro anos sob a direção de Stela Barbieri. A experiência e o conhecimento dessa equipe, incluindo suas conexões com escolas, comunidades e organizações locais, serviu como base para que os curadores começassem a convidar artistas que sejam capazes de se colocar frente ao desafio de colaboração e trabalho coletivo. A parceria com a Residência Artística FAAP também permitiu que diversos artistas permaneçam por períodos mais prolongados e conheçam diferentes lados de São Paulo e do Brasil. A equipe pedagógica tem apoiado esses artistas e suas pesquisas, ajudando-os a articular a criação de novas obras para a Bienal, conforme os insights e as preocupaçãoes da equipe de São Paulo se combinam com as ideias iniciais dos artistas. Dessa maneira, o preparo da mediação e das questões do evento, abordando a forma como serão transcorridos os direcionamentos e intercâmbios com o público, estará presente desde o começo do processo.

Uma preocupação com a educação não parece estranha ao Brasil, um país com extensa história de educação radical e com uma questão urgente, voltada à divulgação e ao aprendizado efetivo da contemporaneidade. Várias tentativas foram feitas, aqui e em outros lugares, em escalas maiores e menores, para mudar as estruturas sociais e acabar com as desigualdades através da educação; e para a 31ª Bienal, nós convidamos uma variedade de projetos que atravessam a história da educação experimental, para ver como podemos reavaliar esse potencial hoje. Pedro G. Romero está pesquisando a estética e as consequências políticas da Escola Moderna, enquanto Imogen Stidworthy trabalha com o legado de Fernand Deligny em Monoblet, Fança; Graziela Kunsch e Lilian Kelian irão pensar sobre o passado e o presente do sistema educacional em São Paulo e no Brasil. Todos eles estão propondo questões e modelos que servirão de informe para as atividades ao longo da exposição. Dessa forma, queremos colocar a educação e os usuários da 31ª Bienal – alunos do primário, estudantes, comunidades e visitantes – no centro das ações. Além de trabalhar com artistas profundamente engajados nessas questões, isso significa que parte do espaço do pavilhão será dedicado não somente à arte, mas também à proposta de recepcionar, preparar, conversar e pensar. Felizmente, a arquitetura do edifício está pronta para uma intervenção como essa, com um térreo que se abre diretamente para o parque e que oferece uma zona intermediária entre a natureza produzida pelo homem e os gabinetes necessários para a exposição de certos tipos de arte. Para criar essa transição, a concepção do espaço está sendo desenvolvida em colaboração com grupos de artistas com expêriencia e investimento nessas questões, como o Contrafilé e Sandi Hilal e Alessandro Petti.

Nossa preocupação com a educação também funciona numa escala menor, quase íntima, com a construção de um workshop de três semanas chamado Caixa de Ferramentas para Organização Cultural. Por três semanas distribuidas ao longo de mais de dez meses, um grupo de 17 jovens artistas, curadores, escritores e ativistas culturais foi convidado para discutir sobre questões práticas e teóricas com a equipe de curadores e outros convidados, com o objetivo de refletir sobre o trabalho com cultura nos dias de hoje. A intenção é oferecer ferramentas que possam contribuir para a transformação dos lugares e instituições onde os participantes vivem e trabalham.

Conflito e Coletividade

Trabalhar juntos, de forma horizontal e abordando situações de conflito, parecem atitudes fundamentais para nós, especialmente num país e num mundo que está passando por mudanças sociais significativas. Enquanto a divisão entre ricos e pobres aumenta a cada dia, parecem haver poucos meios para atingir esse fenômeno através das ferramentas artísticas de que dispomos. Cidades e regiões estão mudando radicalmente, mas ainda assim, os mecanismos de representação política oferecem poucas respostas em escala global. A velocidade e a direção da viagem estão produzindo conflitos ao redor do mundo, e não é muito difícil prever uma crise de representação política, onde um crescente clamor que diz ‘não é assim!’ é acompanhado pelo impulso de manter-se unido e se opor coletivamente às notórias condições de injustiça. Essa conexão íntima entre conflito e coletividade representa algo que é frequentemente usado como fonte de energia e inspiração pelos artistas.

Alguns, como Ana Lira ou Halil Altindere, apontam suas câmeras para as lutas recentes, a primeira registrando o desaparecimento de imagens e slogans em pôsteres políticos em Recife, e o segundo trabalhando com jovens dos subúrbios de Istambul para pronunciar e representar a sua raiva (e alegria) através da música. Em outras ocasiões, artistas participantes irão mesclar as ideias e preocupações de seus próprios locais com as condições e pessoas que encontraram no Brasil. Juaz Pérez Agirregoikoa irá reproduzir o que Pier Paolo Pasolini deixou de sua versão do Evangelho de São Marcos, com a ajuda de atores amadores de diversas áreas de São Paulo; Etcétera… irá propor um teatro de cunho político com o auxílio de León Ferrari; Yochai Avrahami aborda as mostras de museus históricos do Brasil como ponto inicial de uma narrativa transmitida através de objetos; Ines Doujak e John Barker investigam como os tecidos representam a base de um sistema de exploração e de que maneira eles podem agir, aqui, como ferramentas para subverter tal sistema.

Todos esses projetos, e muitos outros, serão reunidos no pavilhão da Bienal em uma série de densidades, algumas intensas, outras mais calmas, que contem histórias sobre coisas que não existem. Nossos diversos usuários irão preencher o espaço e quem sabe criar imagens de corpos unidos, encolhidos, orgulhosos, abraçados ou agarrados uns aos outros a fim de completar a nossa jornada. Os filmes e pinturas de Leigh Orpaz e Bruno Pacheco, assim como os desenhos de Prabhakar Pachpute, podem ser imagens precisas da provável experiência de uma visita ao Brasil, mas também são relevantes por representar uma maneira de refletir sobre como essas coisas que não existem podem ser novamente integradas à existência. É agindo em conjunto, neste caso ao redor da arte, e compartilhando ambições e valores opostos ao sistema dominante, que nós poderemos atingir juntos uma transformação, rumando para uma maneira diferente de enxergar as coisas, de falar sobre elas, de lutar pelas coisas e contra elas, e transformar a nós e nossa relação com o mundo a nossa volta.

 

Texto: curadores da 31a Bienal de São Paulo
Imagem: Juan Downey, WAYU, 1977

www.bienal.org.br